A criopreservação é a técnica que permite congelar e armazenar espermatozoides, óvulos ou embriões para uso futuro. Mais do que um recurso laboratorial, representa uma estratégia que amplia as possibilidades reprodutivas: permite planejar a gestação com mais segurança, preservar a fertilidade antes de tratamentos que possam comprometê-la e aproveitar ao máximo cada ciclo de FIV.
A técnica mais moderna e utilizada atualmente é a vitrificação, um método de congelamento ultrarrápido que resfria o material biológico a aproximadamente 20.000°C por minuto, impedindo a formação de cristais de gelo intracelulares que poderiam danificar as células. O congelamento lento, método mais antigo, ainda é utilizado em alguns contextos, mas com taxas de sobrevivência celular inferiores.
No congelamento lento, a temperatura cai a cerca de 0,3°C por minuto, processo que pode permitir a formação de microcristais de gelo dentro da célula, comprometendo sua estrutura. Na vitrificação, a velocidade de resfriamento é cerca de 60.000 vezes maior, criando um estado vítreo que preserva a célula sem danos estruturais.
Em protocolos modernos de vitrificação, as taxas de sobrevivência após o reaquecimento são superiores a 95% para embriões em estágio de blastocisto e podem chegar a 98% para oócitos maduros.
A criopreservação de embriões é o recurso mais utilizado em FIV. Os embriões viáveis que não são transferidos imediatamente são vitrificados e armazenados, permitindo transferência em ciclo posterior sem necessidade de repetir a estimulação ovariana e a punção. Também é indicada em casos de síndrome de hiperestimulação ovariana (SHO), situação em que a resposta à estimulação foi excessiva e a transferência imediata aumentaria o risco para a paciente. Nesses casos, adiar a transferência para um ciclo seguro é o protocolo recomendado. A criopreservação de embriões também é o padrão em ciclos com Teste Genético Pré-Implantacional (PGT).
A criopreservação de óvulos é indicada para mulheres que desejam preservar sua fertilidade para o futuro, seja por razões pessoais (congelamento eletivo) ou por necessidade médica, como início de tratamento oncológico ou diagnóstico de baixa reserva ovariana em idade jovem. Os melhores resultados são obtidos com óvulos criopreservados antes dos 35 anos.
A criopreservação de sêmen é indicada para homens que vão iniciar tratamentos gonadotóxicos, submeter-se à vasectomia, ou que desejam preservar gametas para uso futuro. A coleta é feita por masturbação na clínica; em casos de azoospermia, por técnicas de coleta testicular. O material pode permanecer armazenado por tempo indeterminado.
Quando o material criopreservado é necessário, o reaquecimento é realizado no laboratório de embriologia. Na vitrificação, o aquecimento também é ultrarrápido: as soluções crioprotetoras são progressivamente removidas conforme a temperatura sobe, permitindo que as células recuperem suas propriedades originais. Antes de serem utilizados, os embriões, óvulos ou espermatozoides passam por avaliação laboratorial de qualidade.
O material biológico pode permanecer criopreservado por tempo indeterminado em tanques de nitrogênio líquido a -196°C, sem perda significativa de qualidade. Não existe data de validade estabelecida para embriões, óvulos ou espermatozoides vitrificados.
Não. A criopreservação preserva o potencial reprodutivo, mas não garante gravidez. As taxas de sucesso na utilização futura do material dependem principalmente da qualidade dos gametas ou embriões no momento do congelamento e da idade da paciente quando os óvulos foram coletados.
A literatura sugere que congelar entre 10 e 20 óvulos maduros oferece probabilidade razoável de pelo menos uma gravidez futura em mulheres com menos de 35 anos. O número exato depende da resposta à estimulação ovariana e pode ser estimado pelo médico antes do ciclo.
Não. O processo de estimulação ovariana para coleta de óvulos não compromete a reserva ovariana remanescente nem altera permanentemente o equilíbrio hormonal. Os óvulos utilizados na estimulação seriam naturalmente perdidos naquele ciclo.